A proposta do projeto Histórias da Tradição é de registrar, documentar e divulgar as culturas indígenas para o fortalecimento da identidade e a aproximação com a sociedade brasileira.

E também a formação de um acervo de histórias e narrativas para preservar a memória dos narradores tradicionais que permita a apropriação desse patrimônio pelas comunidades e o seu uso na produção de outros materiais educativos e culturais.

“Viemos de dentro do rio, do mundo abissal. Nossos ancestrais, curiosos com o mundo desconhecido que havia além de um orifício na superfície da água, atravessaram para este mundo e ficaram vivendo às margens do Rio Araguaia...”
Povo Karajá

“Nós viemos de lá, de onde o sol nasce, da raiz do céu. Somos de uma linhagem
 antiga. Aprendemos com nossos ancestrais os fundamentos da tradição.
 Mantemos vivo o Espírito da Criação.”
Povo Xavante

O processo

Durante dez meses, a equipe da Ikore trabalhou com as aldeias Fontoura e Etenhiritipá na execução do projeto, com o planejamento e realização das viagens a campo, no registro e processamento de todo o material coletado, na finalização deste web site e dos dois livros.

Na cidade de São Paulo e nas aldeias no Tocantins e Mato Grosso, fotógrafos, produtores, videomakers, narradores, tradutores, desenhistas, pensadores, historiadores, jornalistas se empenharam, acreditando na importância do projeto e na beleza dos resultados.

Cada aldeia parceira decidiu a formação de suas equipes e a metodologia de trabalho. Conversas, discussões, reflexões apontaram os caminhos. E o processo começou com a documentação da arte das narrativas orais, feita em áudio, fotografia e vídeo pelos jovens indígenas Karajá e Xavante. Numa segunda viagem às aldeias, o trabalho foi complementado, incorporando uma equipe maior, com mais profissionais de cada área.

Parte desse rico material coletado nos idiomas nativos está aqui disponível para o encantamento de todos, principalmente das comunidades realizadoras e de outras que dominam a mesma língua.

Algumas histórias foram selecionadas pelas comunidades para serem traduzidas para o português e editadas em livros como importantes ferramentas de divulgação das culturas e aproximação com os demais povos que constituem a nação brasileira.

A tradução e escrita das histórias indígenas em português é um trabalho extremamente delicado, pois envolve o domínio dos dois idiomas e culturas. Os professores indígenas criaram as primeiras versões dos textos em português, num trabalho de checagem permanente com os narradores.

Esses textos foram depois aprofundados e detalhados em horas e horas de muita conversa até que se encontrasse a palavra correta, a expressão mais exata para traduzir o pensamento original. O texto final em português buscou preservar a riqueza e o ritmo de cada história, o estilo de cada narrador, sua visão de mundo.

Os desenhistas, em sua maioria jovens das aldeias, também se empenharam para revelar seu imaginário. Usando lápis de cor, canetas hidrográficas e giz de cera sobre papel, expressaram com sua arte os momentos de cada história.

E assim, cada povo se juntou no pátio da aldeia, nas salas de aula, no alto da Serra do Roncador, nas praias do Rio Araguaia para falar sobre o tempo antigo, relembrar as histórias, reviver os momentos de encontro e trocas que trazem para o presente esse tempo de toda a criação.

Histórias de parcerias

Na década de 1990 o Núcleo de Cultura Indígena, dirigido por Ailton Krenak e tendo Angela Pappiani à frente da Coordenação Cultural, iniciou um trabalho de registro e divulgação do patrimônio de histórias, narrativas, mitos e cantos do povo Xavante da Terra Indígena Pimentel Barbosa, em parceria com a Associação Indígena dessa comunidade.

Esse trabalho aconteceu por iniciativa da comunidade, que na época estava reunida principalmente na aldeia Pimentel Barbosa. A proposta  era valorizar o conhecimento dos velhos que já estavam em idade avançada e documentar esse patrimônio para as futuras gerações, além de  divulgar ao público mais amplo essa rica cultura. Wabuá Xavante, nessa ocasião, dizia: “ Ninguém respeita aquilo que não conhece, precisamos mostrar aos warazu a riqueza, beleza e força da nossa cultura. Só assim eles vão nos respeitar e valorizar.”  

Como resultado desse trabalho foi lançado em 1994 o CD Etenhiritipá- Cantos da Tradição Xavante, com cantos coletivos gravados no pátio da aldeia, com todos os direitos registrados em nome da comunidade. O documentário A’uwe uptabi – o povo verdadeiro, finalizado em 1998, foi premiado no ano seguinte no FICA – Festival de Cinema Ambiental de Goiás. O livro pioneiro Wamrêmé Za’ ra- Nossa Palavra/ Mito e História do Povo Xavante, editado pelo SENAC/SP, foi assinado pelos cinco homens mais velhos da aldeia – Sereburã, Hipru, Serezabdi, Rupaê,  Sereminirami.

A parceria com a banda Sepultura, em 1996,  na faixa Isari do álbum Roots teve repercussão internacional, aproximando jovens de todo o mundo com a realidade de um povo indígena do Brasil - os Xavante. A presença marcante, de 2001 a 2008, no projeto Rito de Passagem – canto e dança ritual indígena levou os rituais Xavante para dezenas de cidades no Brasil, Alemanha, França e Japão. Entre 2011 e 2013 essa comunidade teve participação ativa nos programas de rádio Aldeias Sonoras, divulgando sua cultura e pensamento.

Karajá 

A parceria com o povo Karajá da aldeia Fontoura começou em 2001 com a presença de um grupo de cantores no projeto Rito de Passagem- Canto e Dança Ritual Indígena. O incentivo para a participação em eventos fora da aldeia levou o  povo Karajá Iny a recuperar e valorizar rituais que quase se perdiam. Dentro desse processo  foi gravado o CD INY – Cantos da Tradição Karajá, sob as mangueiras da aldeia Fontoura, com presença de homens de várias gerações. O CD foi lançado em 2005. 

Até o ano de 2008 foram muitas viagens com o grupo de cantores do povo Iny para várias capitais do Brasil e cidades na Alemanha, França e Japão. Daniel Coxini, grande mestre e conhecedor da cultura de seu povo, à frente deste trabalho cultural, sempre manifestou preocupação com o registro e divulgação de sua cultura. Em todos os momentos de convivência, seja na aldeia Fontoura ou durante as longas viagens com o Rito de Passagem, o trabalho iniciado com o povo Xavante e o livro Wamrêmé Za’ ra sempre foram referência citada para definir o desejo de sua comunidade em ter suas histórias , mitos e narrativas documentados.